Inscreva-se

canal da

no

Tenho Orgulho

Buscar

Os Prints de Sher Machado — Travesti expõe transfobia em aplicativos de encontro.


Os aplicativos de encontro como Badoo, Grindr, Scruff e Tinder são muito populares entre a comunidade LGBTQIA+, em especial entre os gays, que foram os grandes (ir)responsáveis pela disseminação desses apps ao longo do tempo. Seja pela facilidade de encontrar nossos semelhantes sem ter que se expor ao perigo dos espaços públicos, pela praticidade do sexo casual ou pelo sonho de encontrar o “amor da nossa vida” arrastando o dedo pra lá ou pra cá, mais LGBTQ+s aderem a uma das (des)vantagens da pós modernidade liquida.


Mas nem tudo é flores para todas as letras e cores da nossa sigla. Na prática, lésbicas, bissexuais, transexuais e queers encontram bastante dificuldade em dar um match que valha a pena. Vivendo essa realidade na pele, Sher Machado, travesti, militante e ícone em ascensão no Twitter, fez uma série de prints expondo a transfobia, o racismo e a homofobia que encontrava nesses aplicativos.


Reforçando um fato indiscutível, a hiper sexualização do corpo transexual era uma das maiores ofensas que a travesti recebia. “Por que as trans são todas dotadas?”, “Mostra o pau” e outras frases baixas vinham pouco depois de algumas palavras. O interesse estritamente libidinoso contido na maior parte das conversas que Sher mantinha, em especial no Grindr, é notável. Estamos em 2020 e, mesmo com tanta informação sobre o assunto, parece que os homens cis não cansam de passar vergonha.


Apesar de toda a problemática enfrentada no meio digital, a estudante de física afirma que no Tinder foi onde encontrou mais empatia por parte das pessoas, conversas sobre diversos assuntos, inclusive sobre animes dos quais gosta muito. Alguns papos renderam até encontros, o que nos acende uma pequena luz de esperança em meio a chuva de preconceito que pessoas como ela sofrem todos os dias. Porém, na maioria dos casos, depois de alguns dias de interação nesses aplicativos, o match colocava pra fora todo seu preconceito e falta de empatia com a causa que ela defende.


Chega a ser um vexame encontrar dentro da comunidade LGBTQIA+ a coisificação do corpo alheio. Percebemos que muita gente esqueceu sobre com praticar a empatia e perdeu a capacidade de enxergar que, atrás do nosso objeto de desejo, existe um ser humano digno de respeito e afeto.


O problema enfrentado por Sher e por outras transexuais é tanto que, por vezes, pelo fato de ser travesti, deduziram que a mesma seria uma garota de programa e ofereceram dinheiro em troca de um encontro. Desconsiderar que ela também não buscava um parceiro para um encontro casual do tipo “oi e tchau” ou que ela enxergava a possibilidade de algo mais depois de se conhecer pessoalmente acontecia com frequência. Homens heterossexuais que buscavam uma transexual apenas para satisfazer seu desejo também foi relatado pela mesma. “Será nosso segredinho” é uma frase que atravessa e marca a vida de tanto LGBTQIA+s, e, mesmo assim, encontramos esse tipo de comportamento na rede. Não só a objetificação foi presente, ignorar o gênero pelo qual ela gostaria de ser tratada ou não demonstrar o mínimo de interesse a tudo que ela descrevia em seu perfil também era uma forma de transfobia que passava. “Adoro magrinho de bunda pequena” foi uma das diversas frases que recebia com teor preconceituoso.


Sher também encontrava com outras pessoas negras que enfrentavam problemas de insegurança, sentimento compartilhado por tantos outros semelhantes a ela. Por ser ativista transexual e negra, aproveitava a deixa para empoderar outros a se reconhecerem como mais do que um pedaço de carne a ser consumido e depois descartado. O racismo também se mostrava entre os bate-papos com brancos. “Deve ficar um contraste lindo”, disse aquele que provavelmente postou uma foto com fundo preto com a hashtag #VidasNegrasImportam no perfil de alguma rede social durante o mês de junho.


O medo de fazer parte de um número estatístico como morta por ser travesti e negra também rondava suas conversas. O Brasil é um dos países que mais assassina transexuais no mundo, quando consideramos a população negra dentro do recorte, esse numero se torna ainda mais expressivo relativamente. Sher sempre prezou pela sua segurança, e, por este motivo,sempre exigia conhecer bem a pessoa antes, trocar redes sociais, fotos de rosto e nome de cada bate-papo que mantinha. Se a transfobia não fosse tão comum no Brasil e no mundo a fora, será que esta seria uma preocupação compartilhada por ela em suas conversas? Acredito que não.


Mas nem tudo é preconceito no mundo digital. Sher conta que recentemente conheceu um rapaz super legal que acabou se tornando seu amigo. A conversa desses dois começou com curiosidades, dificuldades na hora de escolher um curso universitário e chegou em Filosofia. Sher conta a sua teoria sobre a posse da pipa, que no momento que você compra é sua, mas no momento que a linha se rompe enquanto você a solta, ela entra em um lugar de não pertencimento, onde o primeiro que pegá-la — e há muitos interessados — se torna dono dela. O rapaz em questão corresponde sobre a propriedade dos nossos corpos, se envereda no interesse pela Kemética — uma filosofia baseada na terra dos pretos, conhecida pelo eurocentrismo como Egito. Hoje em dia eles continuam conversando, e eu me reservo o direito de shippar o casal.





(In)felizmente, ela deu uma geral no perfil para facilitar as parcerias que estão chegando para ela, pois temia que o teor das mensagens a prejudicasse de alguma forma nesse momento onde ela finalmente começa a ser reconhecida por mais pessoas do movimento. Sher, muito solicita, entendeu a importância de falarmos sobre o assunto e cedeu, em exclusividade, os prints que mantinha no seu celular, alguns antes disponíveis no twitter e outros jamais expostos. Confira abaixo alguns momentos de vergonha alheia performado por homens cis:





Mesmo que muita gente venha com o argumento de que esses apps trabalham de mais com a superficialidade e a objetificação do outro, e que inclusive é uma das temáticas da comunicação feita pelo app Scruff, uma empresa voltada para o público gay com o sócio majoritário heterossexual, precisamos falar sobre como enxergamos a nós mesmos enquanto pessoas. Precisamos nos tratar com respeito e empatia, pois só assim traremos mudanças efetivas de dentro para fora da nossa comunidade.

0 comentário
Fale Conosco

Em caso de violação LGBTQIA+ denuncie:

Polícia Disque 190

Direitos Humanos Disque 100

Central de Atendimento à Mulher Disque 180