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Marsha P. Johnson - 10 fatos sobre a Drag Queen por trás da Revolta de Stone Wall Inn.

Quando pesquisamos sobre Marsha P. Johnson na internet, encontramos muitos artigos que falam sobre sua misteriosa morte em 1992 e seu papel indispensável na luta pelos direitos da comunidade LGBTQ+, em especial das pessoas transexuais. Além disso, recentemente, a Netflix lançou um documentário sobre sua história, o qual conta a trajetória de Victória Cruz, voluntária no Anti-violence Project (avp.org), em busca de respostas sobre o falecimento de Marsha. O que me incomoda sobre estas investidas para mostrar quem foi a Drag Queen por trás da revolta de Stone Wall Inn é justamente o que encontra espaço nos holofotes: apesar de ela ser uma artista, não sabemos muito sobre sua arte e sobre quem era essa rainha. Por isso elenquei 10 fatos que muitas vezes passam batido quando estudamos sobre sua pessoa.


1- Marsha costurava suas próprias roupas


Quando assistimos RuPaul`s Drag Race, percebemos que um dos critérios para a avaliação do desempenho de uma Rainha é justamente sua capacidade de modelar suas próprias roupas. Black Marsha, como também era conhecida, mantinha essa sua habilidade. Suas roupas eram construídas com materiais que adquiria, seja através de compra, looks antigos ou doações que recebia. Um dos pontos mais importantes sobre a forma como confeccionava era que moldava a roupa ao seu corpo e não se preocupava com o que iriam pensar sobre a normatividade de sua aparência: era comum que seus vestidos não contivessem bojo. Sobre sutiãs? Aparentemente nunca foi vista com um.


2- Marsha já foi modelo de Andy Warhol


Que a nossa Queen era extremamente conhecida entre a comunidade LGBTQ+ de Nova York já sabemos, o que muita gente esquece de notar é que Marsha fez um trabalho em conjunto com um dos artistas de maior influência dos anos 60–70. Andy Warhol utilizou Marsha como modelo para alguns de seus quadros na série “Ladies and Gentlemen”, que retratava pessoas negras e latinas a frente da luta pelos direitos dos transexuais. Suas composições com colagem e serigrafia da militante refletiam como o artista a enxergava: colorida, diversa e divertida. Algumas das telas com a imagem de Johnson continuam até hoje em exposições do artista. A mais recente exposição acontece no TATE Museum em Londres até setembro de 2020. Você pode conferir mais informações sobre esta coleção aqui.



3- Marsha não se identificava com nenhum gênero em específico.


“Pay it no mind”, ou “Não ligue pra isso” em tradução livre, é o real significado do P. em “Marsha P. Johnson”. Ela não ligava para o gênero com o qual as pessoas se relacionavam a ela, contanto que a tratassem com respeito e não limitassem a expressão de sua personalidade. Alguns de seus amigos até hoje não a atrelam a gênero nenhum, flutuando entre o masculino e o feminino. E assim mesmo que Marsha se comportava: havia dias que se vestia enquanto mulher, outro como homem, outro como nenhum ou ambos. No documentário de David France (2017), seu amigo Taylor Mead aparece com Johnson ainda no começo do filme expondo seu comportamento flutuante. Como precursora do movimento pelos direitos das travestis e transexuais da época, poderia ser uma forma da ativista expor falta de importância que a performance de gênero deveria ter na sociedade, ou era apenas ela expressando sua personalidade não-binária ou gênero-fluida. Fato importante: Marsha se tratava enquanto uma “pessoa em não conformidade de gênero”.


4- Johnson fez parte de uma banda e participou de feats com outras


A música sempre fez parte da cultura LGBTQ+, especialmente do mundo Drag Queen, e, durante 20 anos, Marsha participou de um grupo performático chamado “Hot Peaches”, com o qual se apresentava ao menos uma vez por semana no WOW Café, em East Village, NY na década de 70 e 80. Johnson performava alguns números, onde descarregava todo seu carisma com a platéia. Segundo Jimmy Camicia, Jhonson era extremamente generosa no palco, auxiliando seus colegas de trabalho e se esforçando para que o show fosse inesquecível todas as vezes: ela conseguia. Em suas performances, a Drag Queen encontrava no humor despretensioso sua forma de expressão: não havia preocupação em cantar bem, pelo contrário, quanto mais desafinado e descontrolado melhor. Seu destaque performático gerou oportunidades de fazer participações com outros grupos de rainhas, entre eles o “The Angels of Light” de São Francisco.


5- Marsha era religiosa


Durante sua infância, Marsha era levada a igreja por seus pais e sua família. Ao chegar na vida adulta, mesmo em meio as dificuldades da vida de uma ativista transexual em Nova York, fazia parte de sua rotina visitar St. Mary’s Church, em Nova Jersey, onde frequentemente era vista rezando em frente a estátua de Maria, quando não nesta, em qualquer outro templo cristão da região. Johnson também fazia questão de trazer os ensinamentos que carregava dos tempos em que era criança. Uma de suas frases mais marcantes, dada em sua última entrevista antes de sua morte, era “nobody promissed you tomorrow”, ou “ninguém te prometeu o amanhã” em tradução livre. A máxima, utilizada por ela, foi aprendida em um sermão na igreja batista que frequentava em seu bairro quando menor. A busca pela liberdade de manter sua religião era uma das bandeiras defendidas por Marsha.


6- Ela viveu como moradora de rua


Assim como sua amiga, Sylvia Rivera, Marsha pagou caro pela sua militância em prol dos direitos LGBTQ+: perdeu o emprego que a mantinha e sua moradia. Por volta de 1966, Johnson viveu nas ruas até o início de 1980, quando Randy Wicker ofereceu estadia em sua casa por uma noite durante o inverno. Foi então que a drag teve a oportunidade de viver sob um teto novamente, e, por amizade foi convidada a permanecer até o dia de sua morte.


7- Marsha era ambulante


Uma de suas tentativas de se manter viva e se afastar da prostituição era vender coisas pelas ruas. Johnson oferecia tudo que podia para conseguir ajudar a si mesma e as suas irmãs da rua. Quando recebia flores ou biscoitos de amigos, oferecia nas calçadas, conversando com as pessoas sobre sua causa e conseguindo alguns trocados com os quais comprava comida ou mantinha materiais de conscientização de suas atividades sociais. Muitas pessoas auxiliavam a transexual por seu carisma e simpatia. Era comum que, ao final de sua caminhada, ela repartisse tudo o que ganhava com todas as outras companheiras de rua. Isso fazia parte de sua personalidade cuidadora e materna: Marsha nunca se preocupava apenas consigo mesma, se fosse necessário, ela tiraria a roupa que vestia para dar para alguém que também estivesse passando por necessidades. Johnson era um verdadeiro Robin Hood de Nova York.


8- Marsha não sabia se maquiar, ou sabia, não sabemos.


Este fato é um pouco contraditório, mas totalmente pertinente a sua construção de personagem enquanto Drag Queen. Enquanto seus amigos diziam que Johnson sempre andava bem vestida e com adornos lindos em sua cabeça, eles também diziam que ela estava com a maquiagem fora do lugar ou exagerada. Em uma de suas entrevistas, vemos Marsha se maquiando sem o uso de um espelho, seria isso uma de suas práticas? O que importa é que isso se tornou parte de sua identidade, sendo uma das grandes marcas do ícone trans. O que é fato é que ela não precisava de muito para conquistar as pessoas: seu sorriso e seu carisma eram seu maior cartão de visitas, e era com isso que cativava o público e as pessoas na rua. O que nos leva a mais um fato interessante.


9- Marsha conscientemente se esforçava para ser mais simpática que o normal


Que o carisma é essencial para quem trabalha com o público, sabemos. Nossa rainha também sabia disso e é por isso que se esforçava para ser mais carismática com as pessoas do que a maioria das outras que estavam a sua volta. Marsha não era apenas uma Drag Queen, era uma transativista séria e com propósitos políticos claros, e, por tanto, era extremamente importante que ela fosse capaz de convencer as pessoas a pararem e a ouvirem suas reivindicações e seus argumentos. Johnson tinha o costume de fazer-se reconhecida por todos em um recinto: ela olhava para a pessoa e dizia “Hello!” até que tivesse certeza que estava sendo notada onde chegasse. Além disso, a transexual buscava identificar e se importar realmente com os problemas de quem cruzasse seu caminho. Foi assim que conheceu pessoas soro positivas durante a década de 80, com as quais desenvolvia um papel de amiga e psicóloga, buscando entender suas necessidades e aflições. Em 1992 aderiu ao movimento ACT UP, que combatia a pandemia e o preconceito com as pessoas HIV+.


10- Marsha nunca levou ser Drag Queen a sério


Se vestir, se pentear e se maquiar como queria era parte do que Johnson entendia como sua personalidade. Se travestia desde muito nova por prazer e pouco ensaiava para suas performances no palco. A travesti, na realidade, participava desses tipos de atividades por que esses momentos traziam leveza e felicidade para a sua vida. A partir do momento que conseguiu destaque e até mesmo dinheiro com suas apresentações, ela se manteve fiel ao que acreditava, não mudando seu comportamento ou deixando de manifestar sua vontade e liberdade na hora de ser o que era.


Marsha nos ensina a nos amarmos e fazermos de tudo por aquilo que acreditamos, essa é uma das suas grandes lições. Além disso, ela nos mostra o quão importante é se importar com uma causa sem perder a sua humanidade. Ela era quem ela era e isso era capaz de mudar a vida de centenas de pessoas diretamente e milhares indiretamente. Johnson e Sylvia desempenharam papéis essenciais na conquista dos direitos LGBTQ+, mas nem por isso devemos tratá-las apenas como personagens históricos. Acredito que podemos aprender muito mais sobre como ser membros ativos da luta se nos dedicarmos a conhecer os seres humanos por trás dos acontecimentos. O que é mais valioso na linha do tempo de nosso movimento é o capital humano que a construiu. Pense sobre isso.


@Arielloficial

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